Uma grande graça de Nossa Senhora da Salete

Costumávamos, quando chegava o verão, ir passar dois meses, para descansar das fadigas da vida ativa do Rio, na casa de uns parentes nossos, muito amigos, no recanto de uma pequena cidade à beira-mar, no Estado do Rio.

A casa onde morávamos estava afastada do centro, numa linda praia, chamada Praia Grande. Além da nossa casa, havia mais a “Casa do Inglês”, assim chamada por morar nela um senhor inglês distintíssimo, casado com moça brasileira. O casal era muito hospitaleiro e amável. As outras eram casinhas de pescadores ou trabalhadores da roça, que moravam em pequeninas casas de sapé, uns à beira da praia, outros no alto do morro. A praia era linda, com a Ilha Grande ao fundo e mais algumas ilhas: umas grandes, outras pequeninas. Atrás da casa, montanha grandiosa. Mata virgem, onde se encontrava até o cedro, que servia para a construção dos barcos. Muita água vinda de grande cachoeira.

A casa era muito aprazível e o jardim rústico estava guarnecido com brincos de rainha, sabugueiros, com os seus lindos buquês de noiva, crótons, samambaias, palmeiras grandes em leques e tufos de palmeiras finas. Rodeava a casa formoso pomar, guarnecido pela natureza de grandes lajes e pela mão do homem, de coqueiros, mangueiras, cajueiros, goiabeiras, laranjeiras, cambucazeiros e de jabuticabeiras. Na entrada do jardim havia uma palmeira que marcava o nascimento de um dos filhos do dono da casa. Botes e canoas para passeio, redes entre árvores, peixe excelente, água de coco, palmitos, frutas e convivência acolhedora e amável. Costumava dizer que aquele lugar era para mim um paraíso terreal!

Em noites enluaradas, o pessoal tocava violão e cantava e ficávamos na praia até tarde, vendo os pescadores deitarem as redes e os covos (cestos compridos de vime para pesca).

Morava numa das casinhas no alto do morro, uma mulher com a idade aproximada de 60 anos, de cor branca, com um filho único, rapaz excelente, moreno queimado, talvez com uns 28 anos de idade, empregado na Escola de Grumetes, na enseada Batista das Neves. A mãe vivia trabalhando na roça. Descia algumas vezes para vender algum doce, ou comprar peixe, ou visitar os conhecidos. Chamava-se a “Sá Joaquina” e ele o “Mineiro”. Almas simples, ingênuas, tipos completos de roceiros.

À tardinha nos sentávamos na areia da praia, enquanto os meninos pescavam ou passeavam de bote. Tardes lindíssimas de verão! Nós nos divertíamos em conversar com aquela gente humilde e boa da vizinhança. Eles vinham e lá ficavam conversando até o anoitecer. Entre eles estava o “Mineiro”. Depois da volta do trabalho e do seu jantar, descia o morro, acocorava-se na praia diante do meu marido e ouvia a conversa sem nada dizer, embevecido. Quando meu marido se levantava, ele dizia: “Seu Doto, té manhã”! E, no dia seguinte, se não chovesse, era a mesma coisa. Eles tinham por nós uma verdadeira veneração.

Costumava eu levar morim, chitas, sabonetes, folhinhas (de que muito gostavam) para que, quando nos fizessem a primeira visita recebessem uma lembrançazinha. Procurava recebê-los com muita consideração, razão por que ficavam lisonjeados. Em troca, às vezes, de um sabonete ou de uns metros de morim, recebia logo depois, uma cesta de aipim, frutas, peixes, etc… pois não se deixavam vencer em amabilidade. Quando falávamos em voltar para o Rio, eles se entristeciam e pediam a Deus para que voltássemos breve. De modo que nós queríamos muito bem àquela gente sincera e simples que tanto nos estimava.

Num verão, quando cheguei à Praia Grande, soube a triste notícia de que o “Mineiro” havia falecido, em 3 dias, de um acesso bilioso, sem recurso algum e que a “Sá Joaquina” estava quase louca.  Dias depois ela me apareceu magra, acabada, com olhar desvairado. Quando nos viu, chorou muito e começou fala de cortar o coração. Disseram-me os vizinhos que ela se levantava cedo e depois vagava pela praia o dia todo, indo até a cidade sem saber o que fazia, chamando pelo filho. O golpe fora cruel. O filho era tudo para ela. Realmente era um filho ótimo! Vivendo exclusivamente para a velha mãe.

Eu confesso que fiquei extática diante de tal dor! Não tive uma palavra de consolo, mesmo porque nada adiantava achando-se ela num estado anormal. Costumava levar um cento de estampas de Nossa Senhora da Salette, tal qual apareceu nas montanhas da França, a dois pastorezinhos, Maximino e Melânia, chorando pela conversão dos pecadores. Distribuía-as àquela gente pedindo que, sempre que pudessem, rezassem uma Ave-Maria para enxugar as lágrimas de Nossa  Senhora. Eles gostavam muito de ouvir contar a aparição. Na aflição de “Sá Joaquina” só vi uma solução: Nossa Senhora da Salette que também chorava por nós. Mandei chamá-la e disse-lhe que só Nossa Senhora a poderia consolar e que ela guardasse com fé aquela estampa. Beijou-me a mão, chorando, e guardou a estampa.

No ano seguinte voltei à Praia Grande. Uma das primeiras visitas foi a “Sá Joaquina”. Bem disposta, corada e alegre. Fiquei estupefata! Percebendo o meu espanto, rindo, em linguagem simples de roceira, disse pouco mais ou menos o seguinte: Foi o milagre da sua santa. Desde o dia em que a senhora me deu a estampa, parecia que minha aflição não era tão grande. Comecei a sentir consolo. Depois, Nossa Senhora, me deu um sonho lindo! Sonhei que Nossa Senhora aparecera à porta da minha casa. Eu lhe perguntei: “Por que levou o meu filho, que tanta falta me faz? — Ela respondeu. “Eu o guardo comigo, porque era muito bom e trabalhava demais”. (E contava ela que Nossa Senhora dizia isto muito triste, o que coincide com a queixa de Nossa Senhora na Aparição da Montanha da Salette, da falta de respeito aos domingos). “Mas, minha filha, continuou Nossa Senhora, eu vou te dar em compensação um grande presente; e, desaparecendo por de trás da casa, voltou trazendo na mão um cálice cheio de sangue que transbordava e me ofereceu”. — Aí acordei. Fiquei contente vendo Nossa Senhora tão linda! e querendo adivinhar o sonho. Fui à cidade e contei-o a um padre. Ele me disse que o presente que Nossa Senhora me dava era a Sagrada Comunhão, o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Então confessei e comunguei, o que já não fazia havia muitos anos. Depois fiquei como a senhora vê, contente certa de que o meu filho está no céu, com a Santinha que a senhora me deu. E eu estou aqui esperando o meu dia de ir para o céu também.

Isto ela me disse comovida, com palavras rústicas, de forma que não sei exprimir. Chorei de comoção. — A transformação daquela alma tinha sido um grande benefício para ela e também uma enorme graça que Nossa Senhora me concedera em recompensa do fervor com que eu distribuía as suas estampas. Achei um dever de gratidão deixar escrito este favor importante. Que Nossa Senhora no céu confirme estas palavras tão verdadeiras!

Testemunho extraído do livro: Nossa Senhora – Curso Médio de Catecismo

Por Eduardo Doege