Alguém já parou para pensar nisso? Hoje em nossa vida de Igreja vivemos essa dualidade. Pecado e graça. O ser humano que erra e Deus que perdoa. Muitas vezes nós católicos podemos cair numa espécie de heresia e não paramos para pensar que tudo em nossa vida acontece por graça de Deus. Queremos uma Igreja que satisfaça nossas expectativas ao invés de celebrar o mistério. Alguém poderia também se perguntar: O ser humano é conduzido pela graça sem liberdade para fazer o mal, ou conduzido pelo mal sem liberdade de escolher a graça. Diante disso lidamos com dois aspectos: Graça e Liberdade. Em outras palavras podemos dizer: Temos liberdade de não escolher a graça?
É preciso ter presente de que mais do que buscar a Deus é Deus mesmo que nos busca. Ele dá o primeiro passo. Isso já fica claro no Antigo Testamento. Deus escolhe seu povo, faz com ele uma aliança e isso tudo é graça. Deste modo respondendo a pergunta que motivou este artigo, podemos dizer: Sim. Se o ser humano não tivesse pecado, mesmo assim Jesus teria se encarnado. É preciso entender justamente a relação da graça de Deus com o ser humano. A graça da Salvação não é apenas para libertar o ser humano do pecado. Isso seria limitar a ação de Deus as questões humanas. Com a encarnação do Verbo, muito mais que nos salvar do pecado, Deus se faz um de nós, e nos dá a oportunidade de encontrar Deus face a face. Com a encarnação de Jesus, Deus assume toda a obra da criação. Pois ela também é graça e Deus viu que era bom. Ao criar o ser humano Deus viu que era muito bom. Por isso, o ser humano é criado a imagem e semelhança de Deus. Ser humano é ver divino, assim como Jesus de tão humano que foi, só poderia ser divino.
Deste modo é preciso deixar de lado aquele axioma de que o ser humano é ruim, o pecado vem pela nossa humanidade. Isso está errado! É o pecado que nos desumaniza. É a graça de Deus que nos perdoa e nos faz voltar a nossa humanidade: dom e graça de Deus, sua imagem e semelhança. É preciso deixar claro que quando falamos de imagem e semelhança não estamos falando em aspectos físicos e sim ontológico. Neste sentido o leitor pode se perguntar: e o pecado de Adão e Eva? Voltemos então a experiência o Éden. Com o pecado original, perdemos a Imagem de Deus porém não a semelhança. Deste modo, o episódio do Éden nos marcou para sempre. Porém a Salvação em Jesus Cristo através do batismo faz-nos reassumir a imagem de Deus perdida pelo pecado.
Se o ser humano não tivesse pecado Jesus teria se encarnado? A resposta, portanto, é sim. Mas por que? É preciso então deixar claro que a missão de Jesus não foi apenas a salvação do ser humano e sim assumir a sua natureza, assumindo toda a obra da criação como já dissemos. Sobre esse aspecto é importante retomarmos a maneira como o Evangelho de João trata a ressureição. Coloca Jesus no jardim, remontando o Éden. Ele é o jardineiro na visão de Madalena. O jardineiro que vem para restaurar toda a obra de criação de Deus, que aos seus olhos é bom. Por outro lado, a missão de Jesus também está empregada em anunciar o Reino de Deus. Um Reino de amor, de paz e de justiça. O anuncio do Reino é lembrado por João Paulo II ao acrescentar os mistérios da luz ao Santo Terço. Justamente para lembrar essa dimensão cristológica. Para isso voltemos aos evangelhos sinóticos, onde a centralidade está de fato no anuncio do Reino, do qual a Igreja, comunidade dos filhos de Deus dá continuidade. Nos sinóticos, Jesus faz uma caminhada para Jerusalém, para a sua páscoa. Jesus é condenado e sua acusação é ser contra as leis de Moisés, denunciar as injustiças e anunciar que o Reino de Deus vem através dos pobres e mais simples. Por esse Reino Jesus é condenado e Morto.
Em certos aspectos, o cristianismo da modernidade faz uma distinção ente Graça e Liberdade. Não se pode buscar os extremismos. Pela grandeza da liberdade humana, o cristianismo não é fechado a essa liberdade pois é o ser humano que acolhe a graça de Deus. É a ordem da gratuidade e não da obrigação. Deste modo, o mundo não é e não pode ser visto como adversário da graça de Deus. O Concílio Vaticano II nos lembra que as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias do mundo de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias da Igreja. (cf. GS).Por isso, o Evangelho pega carona com a modernidade e não é adversária. Por isso, não esqueçamos: o ser humano é bom, marcado pela graça primordial.
Seminarista Álvaro Emanoel da Silva
4º Ano de Teologia – Diocese de Lages