Como Cristo venceu o pecado, a Igreja unida a Cristo continua essa missão de libertar o mundo do pecado. Isso através do Batismo. A marca do pecado original é lavada, mas a inclinação para o pecado continua. Por isso, vamos nos deparar com essa tensão entre o modelo ideal que é Cristo e a condição humana e sua liberdade. O fato é que fomos criados em comunhão e em caminhada. A existência humana é levada, portanto mediante a vontade e liberdade. Diante disso poderíamos nos perguntar: os que não foram batizados poderiam receber o sacramento da reconciliação?
Precisamos voltar ao Antigo Testamento e perceber que desde o pós-exílio, Israel criou uma série de leis e normas que dizem respeito ao puro e impuro. Neste caso, os impuros, ou sujos, estavam inaptos para se relacionar com Deus. As abluções e banhos permitiam ao povo recuperar sua pureza ritual e assim estarem aptos para participar do culto e da vida ordinária do povo. É claro que não se trata de um batismo como entendemos hoje no contexto cristão. Por outro lado, segundo Pierpaolo Caspani, “A literatura rabínica apresenta um ‘banho de prosélitos’ como rito para introduzir no judaísmo os pagãos convertidos. A esse rito seguia-se a circuncisão para os homens”[1]. Neste caso, podemos perceber um sentido de conversão para o povo Judeu. É preciso deixar de lado as impurezas e aderir a comunidade. Também para os cristãos este sentido de conversão foi incorporado. É fundamental a conversão como adesão a comunidade através do batismo, o que para a fé judaica está relacionado com a adesão a aliança com Deus. Um outro sentido de conversão é a adesão as exigências que derivam da graça batismal. Por isso esclarece Caspani:
A regra da comunidade nos oferece indicações mais amplas. Ela introduz o discurso sobre conversão, sem a qual os banhos são ineficazes; eles pressupõem, portanto, a conversão e são reservados aqueles membros da comunidade que, pela sua pureza de vida, são considerados dignos de aceder à água.[2]
Fica claro, portanto, que há uma conversão que precede o batismo. Era o que afirmávamos no início deste artigo. Em outras palavras podemos dizer que há uma conversão da qual resulta o batismo. Deste modo, aquele que é batizado é incorporado a Cristo, à sua morte e ressurreição, sua vitória sobre o pecado. Está conversão é sobretudo conversão à fé em Cristo. É assim a vida nova, o novo nascimento. Porém a fraqueza e a liberdade humana exigem de nós uma segunda conversão talvez mais árdua. Essa conversão também parte da graça batismal e tem relação com os compromissos assumidos no batismo. É, portanto, uma conversão que vai até a realidade antropológica e a situação que vive cada batizado. Por isso, o sacramento da reconciliação aprofunda, renova e afina a vida nova recebida no Batismo, enfraquecida e ofuscada pelas faltas cometidas. É por isso que se faz a reconciliação sacramental de crianças antes de receberem a primeira Eucaristia.
O Catecismo da Igreja Católica afirma que: “O Santo Batismo é o fundamento de toda a vida cristã, a porta da vida no Espírito e a porta que abre o acesso aos demais sacramentos” (cf CIC 1213). É também pelo batismo que somos incorporados na Igreja. Esta Igreja é sinal de salvação para o mundo e a base da sua ação é o Espírito Santo como nos mostra padre Valter:
Ser filhos no Filho é obra do Espírito Santo. A partir da fé em Jesus Cristo e do batismo em seu nome, o cristão aprende a reconhecer a voz do Senhor e a realizar sua vontade. Não temos outro caminho senão o exemplo do Filho amado em sua experiência de intimidade com o Pai.[3]
Deste modo, sem o exemplo do filho e a vivencia da graça batismal, predomina a tensão entre o modelo ideal e a condição humana. Acabamos caindo num caminho de infidelidade baseado nas vontades individuais. Nos tornamos infiéis ao Espírito Santo. Em outras palavras, quando não sabemos lidar com essa tensão cai-se no pecado. É por isso que o pecado é vencido quando nos abrimos cada vez mais ao Espírito Santo. Podemos dizer então, que o pecado é vencido cada vez que o ser humana está aberto a graça batismal que recebeu: Fundamento da vida cristã e porta de entra da vida no Espírito (cf CIC 1213).
Diante desse quadro, é possível esclarecer que alguém que não foi batizado não poderia receber o sacramento da reconciliação. É claro que há entre nós o costume de batizar crianças pequenas. Mas em se tratando dos catecúmenos, a reconciliação antes do batismo torna-se sem efeito algum. Podemos afirmar isso, partindo dos sentidos de conversão apresentados por Flórez. Uma primeira conversão unida a adesão a fé cristã mediante ao batismo e a segunda a fidelidade do cristão às exigências que derivam da graça batismal. Pode-se, portanto, perceber que os dois sentidos estão ligados com o batismo em si. Deste modo, sem o sentido de conversão expresso pelo batismo, os outros sacramentos tornam-se ineficazes.
Por fim, os sacramentos partem desta realidade dual do ser humano (corpo e Espírito). Os sentidos têm a ver com que é material e marcado pelos limites da existência ou o que é transcendente, fazendo entrar na nossa vida o mistério Pascal de Cristo, por isso o sinal é um canal para esse diálogo, para esta relação.
[1] CASPANI, Pierpaolo. Renascer da água e do Espírito: batismo e crisma, sacramentos da iniciação cristã. São Paulo: Paulinas, 2013. p. 47.
[2] CASPANI, 2013. p. 49.
[3] GOEDERT, Valter Maurício. Batismo: fonte de todas as vocações. São Paulo: Paulinas, 2004. p. 11.
Seminarista Álvaro Emanoel da Silva
4º Ano de Teologia – Diocese de Lages