A história do dilúvio situa-se nos capítulos 6-8 do livro do Gênesis. Antes porém de adentrarmos na questão bíblica é preciso ter presente alguns elementos importantes e significativos. Deste modo é preciso contextualizar fatos, versões e distorções. Desvendar símbolos e analisar palavras.
Num primeiro momento deve ficar claro que houveram relatos de uma grande inundação em outros povos e culturas. É o caso do Mito de Gilgamexe. O mito narra a história de Gilgamexe que escravizava e explorava as pessoas. Após a morte de seu amigo Enkidu, Gilgamexe sai a procurar a vida eterna e se encontra com Uta-Napistim, um homem que havia sido salvo de um dilúvio e somente com ele era possível encontrar a vida eterna. Para sobreviver ao dilúvio, Uta-Napistim construiu um grande barco e fez embarcar nele sua família e a de sua esposa. Suas riquezas e provisões e representantes de todas as espécies de animais. Vemos ai, grande semelhança com a história bíblica do dilúvio. A semelhança também está na maneira em que é narrado tal fato, pois segundo Uta-Napistim, há uma desobediência aos deuses, fato que teria ocasionado o dilúvio. Ao final de tudo, também solta-se uma pomba e uma andorinha. Podemos encontrar também relatos de grandes inundações em narrativas indígenas. Isso porque a água é um forte símbolo de vida, mas também de morte para os povos antigos.
Adentrando ao dilúvio bíblico, vamos perceber que o mesmo tem seu ponto forte nos versículos 1-11, do capítulo7. Deste modo os versículos 1-8 nos apresentam uma espécie de prólogo. Ali encontramos a narrativa da união entre os filhos de Deus, entendidos aqui como aqueles que possuíam um gênero divinizado certamente o mundo divino, e as filhas dos homens. “Os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas e tomaram como mulheres todas as que lhe agradaram” (Gn 6, 2). Dessa união surge aos Nefilim os que a tradução da CNBB traz como os gigantes, heróis renomados dos tempos antigos. Podemos assim dizer que os Nefilim são os caídos, fazendo uma ligação com o mito grego dos Titãs. Deste modo, sem se preocupar muito com sua significação podemos resumir que se trata de uma raça insolente de super-homens, como um exemplo da perversidade crescente que irá motivar o dilúvio. “Iahweh viu que a maldade do homem era grande sobre a terra, e que era continuamente mau todo desígnio de seu coração” (Gn 6, 5). Diante desse fato, vamos perceber no versículo 8 a misericórdia do Senhor a relatar que Noé encontra graça diante de Deus. Na Narrativa bíblica Deus resolve exterminar toda carne (v. 13). Percebe-se assim que a narrativa bíblica, é escrita para falar ao povo no exílio, onde o pecado leva a morte, leva ao exílio, a escravidão. “Israel meu povo, está maduro para o seu fim” (Am 8, 2b). Continuando a narrativa, Deus então pede a Noé que construa uma arca.
Assim adentramos ao fato do dilúvio em si. Antes porém temos que ter claro que as correntes que formaram o pentateuco são Javistas, Eloistas, Jeovistas, Deuteronomistas e Sacerdotal. Para o fato do dilúvio vamos encontrar duas narrativas. A primeira delas é a narrativa Sacerdotal. Nesta narrativa encontramos o termo Deus (Elohim) e não tetragrama (Iahweh). “Deus Disse a Noé” (Gn 6, 13). É descrita a construção da arca “Faze uma arca de madeira resinosa; tu a farás de caniços e a calafetarás com betume por dentro e por fora” (Gn 6, 14). A narrativa propõe um casal de cada espécie “De tudo que vive, de tudo que é carne, farás entrar na arca dois de cada espécie, um macho e uma fêmea para os conservares em vida contigo” (Gn 6, 19). Também é descrito que Deus abrirá as comportas do céu. Vemos também uma datação “No ano seiscentos da vida de Noé, no segundo mês, no décimo sétimo dia do segundo mês, nesse dia jorraram todas as fontes do grande abismo e abriram-se as comportas do céu” (Gn 7, 11). A narrativa continua especificando quem entrou na arca com Noé “Nesse mesmo dia, Noé e seus filhos, Sem, Cam e Jafé, com a mulher de Noé, e as três mulheres de seus filhos, entraram na arca” (Gn 7, 13). Ao final do dilúvio a narrativa sacerdotal diz que Noé soltou um corvo e uma pomba “e soltou o corvo, que foi e voltou, esperando que as águas secassem sobre a terra. Soltou então a pomba que estava com ele para ver se tinha diminuído as águas” (Gn 8, 7-8ª).
Vamos agora as características da versão Javista do dilúvio. A primeira delas é o uso do tetragrama e não da palavra Deus (Elohim) “Iahweh disse a Noé” (Gn 7, 1a). Quanto aos animais, a tradição Javista não fala em um casal de cada espécie mais sim de 7 pares de animais puros e 1 casal de impuros “de todos os animais puros, tomarás sete pares, o macho e sua fêmea; e dos animais que não são puros, tomarás um casal, o macho e sua fêmea” (Gn 7, 2). Essa versão não fala de comportas do céu, mas sim de uma grande chuva “Porque daqui a sete dias, farei chover sobre a terra durante quarenta dias e quarenta noites, e a farei desaparecer as superfície do solo todos os seres que eu fiz” (Gn 7, 4). A tradição Javista não especifica quem entrou na arca, apenas diz que foi Noé e sua casa “Entra na arca, tu e toda a tua família, porque és o único justo que vejo diante de mim no meio dessa geração” (Gn 7, 1).
Essas duas narrativas, que embora divergem em palavras e símbolos, mas que no fundo querem nos dizer a mesma coisa. O pecado do ser humano leva ao dilúvio, porém, Deus tem misericórdia dos que são justos. Faz com esse uma aliança. Podemos assim dizer que os que são justos herdarão a terra. Por outro lado, os maus e os pecadores, irão perecer nas águas, ou seja viverão no caos. Assim, nosso pecado leva a morte, enquanto a justiça nos conduz para a aliança com Deus.
Seminarista Álvaro Emanoel da Silva
4º Ano de Teologia – Diocese de Lages