Assim como houve profecias e figuras de Jesus, assim também houve as que anunciaram e figuraram a Santíssima Virgem.
Por figuras entendem-se pessoas ou coisas que têm, como objeto, figurado analogias surpreendentes. Assim, por exemplo, diz-se que o sacrifício do pão e do vinho, oferecido por Melquisedec, era a figura da Sagrada Eucaristia, tão estupenda é a semelhança entre ambos.
Entre as profecias, apontemos a que remonta ao paraíso terrestre: a mulher a esmagar a cabeça da serpente e as de Isaías: a Virgem-Mãe e a vara de Jessé.
Maria foi também figurada por símbolos e pessoas. Entre os símbolos citemos: a Escada de Jacó, a Arca da aliança, o velo de Gedeão, o Arco-íris e a Sarça ardente. Entre as pessoas figuram principalmente — Eva, Judite, Ester. Todas estas figuras embelezam a liturgia, a pintura e a literatura religiosa. Vejamos um pouco sobre cada uma desta figuras:
Maria prefigurada por símbolos
A escada de Jacó – Trata-se da escada que o patriarca Jacó viu em sonho, na sua fuga. Pousava na terra e alcançava o céu. Deus estava no topo e os anjos por ela desciam e subiam. Os santos doutores vêem nisto uma figura de Maria porque, se a escada de Jacó punha o céu em comunicação com a terra, é por Maria igualmente que Deus baixou até nós e que os homens sobem até Deus.
1.° porque, se, a natureza pôs Maria em contato com a terra, a graça a alçou até o próprio trono de Deus.
2.° porque as palavras que Jacó pronunciou ao despertar de seu sono, se aplicam perfeitamente a Maria: “É aqui, disse o santo patriarca, a casa de Deus e a porta do céu”, dois gloriosos títulos muitas vezes conferidos a Maria pela Santa Igreja.
A Arca da Aliança – A arca da aliança era um cofre de madeira preciosa e incorruptível, inteiramente revestido de ouro. Foi construída por Moisés para receber o maná e as tábuas da lei. Os Hebreus carregavam-na consigo em sua marcha em demanda da Terra da Promissão.
Ela figura Maria:
1.° por sua composição de cedro tido como incorruptível. Como a madeira preciosa da arca, o corpo de Maria escapou da corrupção da morte, e sua alma, também, da corrupção mais hedionda originada pelo pecado.
2.° por seu conteúdo. Maria trouxe em seu seio virginal a Jesus Cristo, o maná verdadeiro, o próprio autor da lei,
3.° por sua função. A arca era o sinal sensível da aliança de Deus com seu povo. Maria foi o instrumento admirável desta aliança na hora da Encarnação.
A Igreja, nas ladainhas, confere a Maria o belo título de Arca da aliança; Foederis arca.
Velo de Gedeão – É uma pele de ovelha que foi o instrumento de um duplo prodígio concedido a Gedeão. Cobriu-se primeiro de orvalho, enquanto a terra em derredor ficou seca; depois permaneceu seca, quando a terra em derredor se cobriu de orvalho.
1.° Maria ficou cheia de graças no meio da humanidade decaída, e é deste velo imaculado, isto é, de sua carne virginal, que foi plasmada a carne de Jesus Cristo, que é como o revestimento do Verbo.
2.° Do mesmo modo que o velo ficou seco, ao passo que o chão se orvalhou, Maria permaneceu sem pecado no meio de todos os homens culpados.
Arco-íris – O arco-íris foi sinal dado por Deus a Noé, como penhor da paz restituída à terra.
1.° Da mesma maneira, a aparição de Maria neste mundo foi o penhor da próxima reconciliação do céu com a terra culpada, pela Encarnação de Nosso Senhor.
2.° Da mesma maneira ainda que o arco-íris irradia sete cores, a alma de Maria foi ornada dos sete dons do divino Espírito Santo.
Sarça ardente – Moisés viu no monte Horeb uma sarça da qual saíam chamas ardentes sem, porém, consumi-la. É por que Deus ali estava. A Igreja, numa antífona de Vésperas de Ofício Parvo, consagra essa figura de Maria com as palavras: “Na sarça que Moisés viu arder sem se consumir, reconhecemos vossa admirável virgindade conservada intacta, quando vos tornáveis a Mãe de Deus”.
Maria prefigurada por pessoas
Eva – Eva foi a figura de Maria por semelhança e por contraste. Foi a mãe do gênero humano culpado, pois, atendendo ao demônio que lhe falava na árvore do Paraíso terrestre, levou, por sua desobediência, os homens à perdição.
Maria é a nova Eva, mãe do gênero humano regenerado pelo novo Adão, Jesus Cristo. Ao pé da cruz, árvore da vida, tornou-se nossa mãe ouvindo a Jesus que a ela nos confiava e pondo-nos todos no caminho da salvação.
Judite – Judite é a heroína que salvou a cidade de Betúlia assediada por Holofernes, decepando-lhe a cabeça. É verdadeira figura de Maria.
1.º porque também Maria, de certo modo, corta a cabeça de Holofernes, isto é, abate o poder do demônio que assedia o coração dos eleitos.
2.° Judite demonstrou força de alma maravilhosa e rara prudência para se conservar pura e inocente no meio dos inimigos pagãos e corruptos. Maria, por sua vez, nos aparece sem mácula no meio do mundo pecador.
3.° Finalmente, assim como o povo de Betúlia libertado do tirano publicou os louvores de Judite, assim também a Igreja cobre de bênçãos a Maria Santíssima que, por Jesus, nos livrou da tirania do demônio.
A liturgia católica tece a Maria os mesmos louvores endereçados a Judite: “Sois a glória de Jerusalém, a alegria de Israel, a honra de nosso povo”. (Tu gloria Jerusalem… Ofício da Imaculada Conceição).
Ester – Ester, jovem judia, esposa do rei Assuero, salvou seu povo que um decreto condenava ao extermínio, apresentando-se diante do soberano, apesar da proibição que lhe ameaçava a vida. É uma das mais tocantes figuras de Maria.
1.° Ester, educada na humildade, é chamada por Assuero que encantado de sua beleza, a associa às glórias do trono. Maria, também, criada humildemente, à sombra do templo, é escolhida por Deus que, atraído pelas suas virtudes, lhe comunica o seu poder e a sua glória.
2.° Maria, por sua Imaculada Conceição, foi isenta da lei da morte que atingia a humanidade, como Ester foi dispensada de qualquer castigo por Assuero, que lhe disse: “Esta lei não foi decretada para vós”.
3.° Enfim, como Ester conseguiu salvar seu povo inocente, Maria obtém de Deus a graça da salvação, até para os pecadores que a invocam.
Outras figuras de Maria – Estas são as principais figuras de Maria. Mas muitas outras pessoas ou coisas, no Antigo Testamento, oferecem semelhanças notáveis para evocar a lembrança de Maria. Estas figuras entraram na liturgia da Igreja; encontram-se nos escritos dos santos Doutores; inspiram o pincel dos artistas na decoração das igrejas e o estro dos poetas numa maravilhosa floração de hinos e cânticos piedosos. E quantos não se satisfizeram com uma mera semelhança!
Exemplos – A terceira lição do Ofício Parvo de Nossa Senhora enumera sucessivamente, como figuras simbólicas de Maria, o cedro do Líbano, o cipreste do monte Sião, a palmeira da planície, o plátano das margens dos rios, porque estas árvores, além de serem as mais belas do Oriente, se elevam muito acima das outras, como Maria no meio dos santos.
A rosa de Jericó lembra o brilho de seus méritos; a linda oliveira que dá o óleo, símbolo da graça, recorda que ela nos deu Jesus. O cinamomo e a mirra, suaves perfumes, evocam o bom odor de suas virtudes.
(Texto adaptado do livro: Nossa Senhora curso médio de catecismo mariano)
Por Eduardo Doege