Ano B, o ano do Evangelho de São Marcos

Caros amigos e amigas, neste ano, estamos lendo e refletindo sobre o evangelho de Marcos (ano B). Partindo do contexto histórico podemos perceber que o Evangelho de Marcos foi escrito por volta do ano 70. Seu escrito é marcado por alguns fatores importantes dentre eles podemos destacar: o desaparecimento da primeira geração de discípulos e discípulas de Jesus (testemunhas apostólicas); a acolhida de gentios por parte da comunidade, motivo de crise e conflito e a guerra entre judeus e romanos com a destruição do templo de Jerusalém. Ou seja, podemos destacar um conflito interno: Judeus – gentios e um conflito externo: judeus – romanos.

Partindo desse contexto histórico podemos traçar uma visão geral do Evangelho de Marcos. A comunidade de Marcos tenta responder a pergunta: Quem é Jesus? (Cap 1 – 8). “Pedro respondeu: Tu és o Cristo”. (cf Mc 8, 29). Sim, Jesus é o Cristo (Messias, o Ungido). Ou seja, a identidade de Jesus de Nazaré aos poucos vai sendo revelada. Diante disso surge outra pergunta que a comunidade de Marcos quer responder nos capítulos seguintes: Que tipo de messias é Jesus? (cf 8,31 – 16,8). Em outras palavras, como se deve compreender a messianidade de Jesus? Está certo que ele é o Cristo. Porém o fundamental da questão é como Jesus é o Cristo? É certo que as pessoas em torno de Jesus esperavam um messias triunfalista, ou um guerreiro. Um grande libertador, venerado como herói. É preciso entrar na escola de Jesus e dar o passo da fé para ter maturidade de responder: “Verdadeiramente este homem era Filho de Deus” (cf Mc 15,39). Fica claro que temos aqui duas grandes partes do Evangelho de Marcos. Cada uma dessas partes gira em torno de símbolos fundamentais. O primeiro é a casa (cf 1,1 – 8,26) e o segundo é o símbolo do caminho (cf 8,22 – 16-20).

A casa é o centro da missão de Jesus na Galileia. Neste contexto é importante perceber a relação da casa de Pedro com a Sinagoga “E logo ao sair da sinagoga foi à casa de Simão” (cf Mc 1,29). É importante notar que antes desse fato o Evangelho narra a cura de um homem impuro. Neste homem impuro está representado todo sistema religioso da época de Jesus. A nova mentalidade proposta por Jesus não é vista com bons olhos pelos judeus “Que queres de nós Jesus nazareno? Viestes para arruinar-nos?” (cf Mc 1, 24). Jesus vem para arruinar com o sistema religioso de pureza, que excluía. A mudança de mentalidade tão fundamental da saída da sinagoga para a casa é violenta. (cf 1,26). A vivência do Evangelho é conflituosa, difícil mas não impossível. Por fim Jesus entra na casa. Essa casa significa também a relação de intimidade com o mestre. Por isso ali tudo se explica em particular, enquanto aos de fora se fala em parábolas. Esta casa acima de tudo representa o novo povo de Deus. Esse povo que quer ser discípulo precisa antes de tudo romper com o sistema. Por isso fé significa ruptura. É preciso sair da sinagoga (ruptura com os sistema religioso) e do mar (ruptura com os sistema político – romanos (cf 1, 16-20)).

É importante perceber que o centro da casa é a mesa onde acontece a partilha dos pães. Nesta mesa estão todos aqueles que se põe a serviço como a sogra de Pedro (cf 1,31); estão os pecadores que fazem refeição com Jesus (cf 1, 15-17); as multidões famintas que os discípulos são convidados a dar de comer (cf 6, 30-44); são as necessidades humanas que precisam ser satisfeitas (cf 2, 23-28). O banquete à mesa da casa de Pedro é o banquete da vida e não da morte como o banquete de Herodes em seu palácio (cf 6, 17-29). Surge ai o novo povo, um novo sistema de convivência. Este sistema surge tendo como base pessoas comuns: são os discípulos os doze novos patriarcas. Pessoas não instruídas e pobres (cf 3, 13-19 e 6, 7-13); são as mulheres que são admitidas à casa (cf 5, 21-43).

A casa de Pedro que é a nova comunidade deve ser firme e perseverante, sem deixar-se levar pelas coisas do mundo. Fica claro na parábola do semeador (cf 4, 1-9), que a comunidade deve resistir àquilo que vem de fora e não deixa a Palavra crescer. Isto é: o sistema político representado pelas aves que roubam a semente (império Romano); O sistema sociocultural representado pelo sol que seca a semente e impede de germinar (helenismo) e por fim o sistema religioso representado pelos espinhos que sufocam a semente e ela morre (Judaísmo).

Na segunda parte do Evangelho de Marcos, a partir do Capitulo 8, 16, temos o Caminho. Jesus inicia uma grande caminhada para Jerusalém. No centro deste caminho vamos perceber a missão e o destino dos discípulos. De fato são para eles que se dirige a pregação de Jesus. O discípulo que é convidado a também carregar a cruz e seguir atrás do mestres (cf Mc 8, 33 – 34). Nesta passagem da casa para o caminho está também as curas que Jesus realiza. O caminho para Jerusalém quer mostrar que tipo de messias Jesus é. Aquele que sofre, mas que ressuscita. Em Jerusalém encontrará a morte, mas ela não é o ponto final, é preciso retomar o caminho: “Ele vos precede na Galileia” (cf Mc 16, 17).

Fica claro também que o caminho de Jesus parte das periferias. Jesus parte de Cesareia de Felipe. Toda a viagem é uma grande inclusão de curas. Primeiro o cego de Betsaida (cf 8, 22) e por último o cego de Jericó (cf 10, 16 – 52). Neste contexto os discípulos são os cegos aos quais Jesus quer abrir os olhos: Tendes olhos mas não vedes” (Mc 8, 18). É preciso superar também a surdez e a mudez com a pratica da oração e ver de fato o mestre como ele realmente é (cf Mc 9, 14 – 29). Por isso, a partir desse contexto, Jesus passa a mudar o seu discurso no Evangelho de Marcos. É importante perceber que o evangelista estabelece os níveis de relação de Jesus. Os mais próximos são Pedro, Tiago e João. Em seguida vem os outros 9 discípulos. Mais afastados estão os 72 discípulos e discípulas de Jesus. E por último as multidões.

A mudança no discurso de Jesus fica evidente a partir de 8, 27. Antes tratava da missão dos discípulos, agora do destino. Se antes Jesus chamou os doze (cf 3, 16-20), agora os convida a tomar a cruz e o seguir (cf 8, 34-38). Se antes escolheu os doze para ficar com Ele (cf 6, 13-19), agora diz que ser o primeiro é ser o servidor de todos (cf 9, 33-37). Se antes deu aos doze uma missão (cf 7, 13), agora a missão é dar a vida pela vida da multidão (cf 10, 35-45). Por fim vamos encontrar a partir do capítulo 11 o ministério de Jesus em Jerusalém.

Podemos perceber que o Evangelho de Marcos tem sua centralidade no anúncio do Reino de Deus. Para que esse Reino aconteça, Jesus instrui seus discípulos para que esses ajudem as comunidades a perseverarem na busca por esse Reino. Ele acontece quando descobrimos de fato quem é Jesus. Assim, percebe-se que este messias é aquele que veio para libertar o povo. Porém não de maneira triunfalista. Por isso, a busca por este Reino deve começar também com um processo de libertação a ser feito por todos os seguidores de Jesus. É libertar-se do sistema religioso da época que é excludente e centralizador, para optar por Deus que é Pai de todos. É libertar-se do sistema político, para optar pelo poder-serviço. É uma libertação social de um sistema de acomodação das ideias dominantes, para optar pelo projeto de fraternidade. É libertar-se das amarras econômicas do “ter” para optar pela partilha.

Seminarista Álvaro Emanoel da Silva
Diocese de Lages