A corrente dos Judeus convertidos

Por trás do Evangelho de Mateus temos, portanto, duas correntes que querem refundar a nova kahal (comunidade) judaísmo formativo. A corrente dos judeus convertidos ao cristianismo, e a corrente dos judeus fariseus.  Busca-se a reestruturação da comunhão das assembleias judaicas.  Diante disso os judeus que seguem Jesus se veem excluídos.  Estes tem um grande desafio: reconstruir a kahal. Deste modo, quais seriam os princípios para colocar essa comunidade a serviço da missão?

O Evangelho de Mateus deve ser entendido dentro da estrutura semítica, estruturada por valores numéricos de uma estrutura literária dividida em partes. Através dessa estrutura é preciso ter noção da numerologia próprio da cultura judaica, onde o três equivale a divindade (superlativo – hebraico). O quatro a criação (terra água fogo e ar). Assim o mundo é a articulação da divindade com a criação. Isso nos leva ao número sete, o número perfeito, o que move o mundo é a intervenção de Deus na criação. Deste modo, o Evangelho de Mateus está estruturado da seguinte forma: parte-se de uma introdução no capítulo um e dois, que nos falam da origem de Jesus. Em seguida divide-se o evangelho em 5 livros. Esses 5 livros nos rementem ao Pentateuco, justamente na busca desse novo ideal.

Fica claro portanto, que o Evangelho de Mateus quer atingir as comunidades cristãs de origem judaica. Porém não se pretende fazer em si uma ruptura radical. O que percebemos é um processo de mostrar uma certa continuidade da tradição judaica, agora com um novo olhar, o olhar do Cristo ressuscitado. Por isso o Evangelho de Mateus apresenta:

Novo Alicerce: a fé em Jesus. Longe de ser uma mentira, é Jesus a nova rocha a qual a casa pode ser construída com segurança (cf Mt 7, 24-27). Não é preciso mais ir a Jerusalém, o grande alicerce agora é a fé.

“Bem-aventurado és tu Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne ou o sangue que te revelaram isso, e, sim meu Pai que está nos céus” (cf Mt 16, 17).

Essa fé é a chave do Reino de Deus, novo projeto a ser construído pela comunidade, que não deve duvidar mais (cf Mt 16, 19).

Nova História: apresentando Jesus como o verdadeiro Filho de Abraão e de Davi (cf Mt 1, 1-17). Em Mateus, José ocupa o lugar que Maria tem em Lucas. José é aquele que escuta o anjo do Senhor (cf Mt 1, 19-22), Assim como Moisés (cf Ex 3, 2). Jesus para Mateus é o primogênito que vai e volta do Egito:

“Ali ficou até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que dissera o Senhor por meio do profeta: Do Egito chamei o meu filho” (cf Mt 2, 15).

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Padre Álvaro Emanoel da Silva