O grande sonho missionário de Padre Dehon

A Sagrada Escritura nos ensina: “Vá de nação em nação para conhecer o bem e o mal que existe nos homens” (Eclo 39,5). Desde o Antigo Testamento, Deus convida o ser humano para desinstalar-se e Jesus nos envia para anunciar: “Ide por todo o mundo e pregue o Evangelho a toda à criatura” (Mc 16,15). Foi esse amor pelo povo e pelo Reino que inflamou o coração de Pe. Dehon.

Desde a sua juventude, ele já manifestava este desejo de servir a Deus em terras distantes. Atento aos apelos de Deus percebe que já era chegada à hora de ir além das fronteiras da Diocese de Soissons.

Ousado como sempre, Pe. Dehon enviou uma correspondência ao Papa Leão XIII, por meio de Dom Thibaudier, solicitando autorização para enviar seus religiosos e padres às missões “ad extra”. Pe. Dehon expressa ao Papa o seu grande desejo de estar presente nas missões longínquas como uma das ações concretas do carisma dos Oblatos: “haurindo do Coração de Jesus o espírito de sacrifício, gostaríamos de estarem presentes nas missões”. Sabendo dos desafios das missões, porque já havia conhecido diversas realidades através de suas viagens, só recomenda uma condição: “de poderem ter uma vida comum e não viverem isolados”.

Quando o fundador falava aos seminaristas dos objetivos da congregação sempre se referia ao Coração de Jesus e aos sacrifícios como forma de expressão a esse amor que tanto nos amou. E recomendava que os Oblatos sempre assumissem todas as “formas de apostolado que exijam maior sacrifício… como a assistência aos operários, o cuidado dos pobres, as missões longínquas”.

Pe. Dehon nunca se acomodou e mesmo nos períodos difíceis da Congregação não deixou seus sonhos morrerem. Pouco depois da supressão em dezembro de 1885, P. Dehon escreve ao Mons. Thibaudier: “Entre nós sempre está presente o desejo das missões… Poderia talvez comunicá-lo a Roma. De fato, em Roma são muito bem vistas as Congregações que pedem missões”. Ele sabia que essa atitude missionária poderia contribuir futuramente para a aprovação definitiva da Congregação.

P. Dehon era incansável quanto à manifestação de que as missões longínquas eram importantes para o espírito de oblação e reparação dos dehonianos. A fala de Dehon aos seminaristas, noviços e religiosos provocava no coração de muitos o desejo de entrega total a Deus através dos sacrifícios em terras distantes da sua diocese. Em uma carta circular, de 7 de novembro de 1886, escreveu: “Embora as missões estrangeiras não constituam nosso fim específico, muitos de nós desejam levar o amor do Coração de Jesus às terras dos pagãos que a Santa Sé nos confiar”. O ano de 1887, Pe. Dehon recebeu um convite para enviar missionária a Nova Guiné. Era uma colônia de alemães e pedia missionários com essa descendência. Não enviou porque naquele momento só havia estudantes de nacionalidade alemã que ainda estavam em período de formação. Em 1888, tornou a insistir com a Santa Sé enviando nova correspondência. Nesse mesmo período, recebeu um convite do Pe. Julio Matovelle, fundador dos “Oblatos do Coração de Jesus”.

Divino amor para fundir os dois institutos porque os fins das duas congregações eram semelhantes e poderiam evangelizar os índios dos Andes. Dehon aceitou e enviou os primeiros missionários para a América do Sul: Pe. Irineu Blanc e Pe. Gabriel Grison. Contudo, infelizmente, nem a fusão das duas congregações, nem a missões com os índios foram possíveis. Dehon, então, recomendou aos seus missionários que se colocassem à disposição do Bispo de Puerto Viejo. Providencialmente, foi-lhe oferecida à direção do seminário diocesano e do Colégio de Bahia. Dehon ficou muito feliz, pois estavam trabalhando na formação do clero e dos jovens. A maçonaria era muito forte e anticlerical. No dia 12 de junho de 1896 expulsou todos os dehonianos do país.

Com grande fervor missionário no coração, Pe. Dehon pensou em ir pessoalmente com Pe. Grison a uma viagem de exploração no Congo, mas teve que renunciar à idéia porque havia algumas dificuldades internas no Instituto que o impediram: “Teria deixado a Obra em dificuldades de toda a ordem e ao meu regresso tê-la-ia encontrado desfeita”.

A missão do Congo foi um momento de muita provação e graças para a Congregação. Era um grande sonho de Pe. Dehon e uma história apaixonante e surpreendente. Num primeiro momento foi difícil a aceitação por parte da Igreja e mesmo dentro da Congregação. Todo o seu conselho geral foi contra a idéia. Naquela época não se autorizava uma missão independente, mas sim com um Vigário Apostólico. Dehon na sua humildade e obediência aceitou. Procurou o procurador dos Franciscanos, chamado Pe. Rafael, e através dele conseguiu os contatos para as devidas autorizações eclesiásticas e civis. Padre Dehon enviou (06/07/1897) seus dois primeiros missionários: Pe. Gabriel Grison e Pe. Gabriel Lux, para a região de Stanley-Falls, no Alto Congo.

A viagem cansativa, que durou três meses de navio e também a pé em plena floresta virgem, concluiu-se no dia 21 de setembro de 1897, quando chegaram a Stanleyville, atualmente Kinsangani. Encontraram algumas casas feitas em barro, palha e madeira. Infelizmente, um mês depois Pe. Lux teve que retornar, pois ficou muito doente com uma febre tropical. Pe. Grison ficou só por sete meses. Corajoso que era, montou tendas à beira do Rio Congo e aí iniciou a missão São Gabriel. Contratou trabalhadores e construiu uma casa-capela feita de ramos e barro. E nesse local, na capela São Gabriel, celebrou a primeira missa no dia de Natal de 1897. No outro dia, quando todos já haviam partido, na solidão e no silêncio, de forma comovente narra o dia de Natal: “Penetrei na floresta virgem e, sentado numa árvore caída, admirei com a alma cheia de encanto da grande festa, aquela natureza de fábula… Parecia-me ouvir, nas lonjuras do futuro, prolongados toques de sinos chamando as pobres tribos negras à grande solenidade do Redentor, nascido para sua salvação”.

Tudo era muito difícil. As distâncias eram grandes. Viajava-se a pé por mais de um mês para chegar a outros lugares. Pe. Grison narra às dificuldades: “o clima é mortal. Em dois anos e meio, de 11 missionários que chegaram, perdemos 7 (mortos ou regressados à Europa). Temos sempre doentes entre a vida e morte. Assim o trabalho torna-se massacrante”. Muitos morriam durante as viagens para o Congo. Vários não se adaptaram ao clima. Contudo, Pe. Dehon continuava mandando missionários. Ele amava a missão do Congo. Tinha muito orgulho dos missionários: “A nossa bela missão do Congo!… Os Sacerdotes do Coração de Jesus devem ter missões difíceis, onde se sofre e se morre jovem”. Analisando a história do Congo, percebemos muitas graças para o país, para a Igreja e para a Congregação. Com o passar do tempo surgiram às vocações, tornou a congregação mais conhecida e internacional. A primeira ordenação de um padre congolês foi no ano de 1938, quando Dom Grison, primeiro bispo da Congregação, ordenou João Agwala. Mas nem tudo foi só alegria. Após a independência do antigo Zaire (30/06/1960), atualmente República Democrática do Congo, durante a rebelião dos chamados Simbas, dos 144 mortos, 29 eram dehonianos. São os primeiros mártires da Congregação. Mais tarde, o Vaticano II nos recordará os trabalhos de todos os missionários e institutos que trabalham com as missões: “após fundarem Igrejas com o seu suor e mesmo com o próprio sangue, pelo zelo e pela experiência hão de servir em fraterna cooperação seja no trabalho pastoral, seja nas tarefas especiais para o bem comum”. Apesar das perdas humanas, temos a confirmação: estamos no caminho certo.

Em janeiro de 1925 quando Pe. Dehon fez um balanço da sua vida, recordou o seu ideal missionário: “O ideal da minha vida, o voto que formulava com lágrimas na minha juventude, era o de ser missionário e mártir. Parece-me que este meu desejo se tenha realizado. Missionário é-o com os mais de cem missionários que tenho em todas as partes do mundo”.

O desejo de anunciar o amor de Deus e quanto este amor é desprezado motivou Pe. Dehon e seus companheiros a fazerem de suas vidas um anúncio que não mediu sacrifícios e esforços. “Assim comprometidos com Ele, para reparar o pecado e a falta de amor na Igreja e no mundo, prestarão com toda a sua vida, com as orações, trabalhos, sofrimentos e alegrias, o culto de amor e de reparação que o seu Coração deseja”. Quanto mais desafiador, maior deve ser nossa generosidade e disponibilidade em servir o povo de Deus. E de modo especial em terras estrangeiras.

Nesse sentido, outras missões foram aceitas ao longo da história dos dehonianos. Pe. Dehon visitou diversos locais para conhecer e propor ao seu conselho geral e religiosos algumas possíveis áreas de missão. Uma condição era necessária: que fossem locais difíceis. Antes da morte do Padre Dehon a Congregação assumiu a Finlândia, Camarões, África do Sul, Sumatra e Canadá. Todas com um grau de dificuldade missionária que contribuiria para a vivência do Carisma.

No ano de 1893, atendendo ao pedido do empresário Dr. Carlos de Menezes, que conhecia o trabalho dos dehonianos nas indústrias têxteis de Val-de-Bois na França, também enviou os primeiros missionários ao Brasil para a cidade de Camaragibe, no estado do Pernambuco. Já, no sul do Brasil, na cidade de Florianópolis, Santa Catarina, chegaram no dia 16 de julho de 1903, os missionários: Pe. José Foxius e o Pe. Gabriel Lux.
Os dehonianos são chamados de “profetas do amor e servidores da reconciliação dos homens e do mundo em Cristo. Portanto, é necessário que cada religioso e presbítero dehoniano faça uma verdadeira experiência do amor de Deus, que concretizado na vida comunitária, fortaleça-se como anúncio através do testemunho amoroso e misericordioso junto ao Povo de Deus. A exemplo do fundador, os dehonianos precisam dizer todos os dias: “Pertenço, pois, a Jesus mais do que o quadro pertence ao pintor, pois Ele me tirou do nada e eu dependo sempre dele”.

Pe. Dehon sempre procurou estar atualizado e sempre em comunhão com a Igreja. O anúncio incansável do amor de Deus realizado por ele e de modo especial pelos nossos primeiros missionários foi confirmado mais tarde, quando Paulo VI nos recorda que “evangelizar é, em primeiro lugar, dar testemunho, de maneira simples e direta, de Deus revelado por Jesus Cristo, no Espírito Santo. “Dar testemunho de que no seu Filho ele amou o mundo; de que no seu Verbo Encarnado ele deu o ser a todas as coisas e chamou os homens para a vida eterna”.

Deus procura de todas as maneiras falarem ao seu povo, deseja que todos escutem a mensagem do Evangelho e respeita a liberdade de seguir os ensinamentos de Jesus. Muitas pessoas, evangelizadas ou não, ainda não possuem a consciência do grande dom de Deus, que se revela através Boa Nova de Jesus.
Os dehonianos anunciam e indica a contemplação do Lado Aberto de Jesus como expressão máxima de amor pela humanidade. Um amor que convida e inclui todos numa mesma fraternidade. Um anúncio que convida a olhar a cruz e criar convicções: “Vede que prova de amor nos deu o Pai: sermos chamados filhos de Deus. E nós o somos”.

Quando as pessoas fazem à experiência do Amor Misericordioso de Deus a vida individual é transformada, como também as pessoas e a sociedade ao redor. Onde há amor e fraternidade não há miséria, injustiça, e fome (At 2, 42-48) e o Reino de Deus se concretiza.

As Constituições dos dehonianos, preocupadas em perpetuar esta dimensão de nosso carisma, recordam o fundador e convidam: “A atividade missionária constitui para ele uma forma privilegiada de serviço apostólico. Em tudo isto, a sua preocupação constante é que a comunidade humana, santificada pelo Espírito Santo, se torne uma oblação agradável a Deus (cf. Rm 15,16)”.

O centro de toda a experiência de fé de Pe. Dehon é o Coração de Cristo. Ele é a fonte do amor e renova e salva toda a humanidade uma vez para sempre. O amor revelado na cruz é capaz de renovar as pessoas, a sociedade e a Igreja. “Do Coração de Cristo, aberto na cruz, nasce o homem de coração novo, animado pelo Espírito e unido aos seus irmãos na comunidade de amor, que é a Igreja”.

Jamais nenhum cristão e de modo especial os dehonianos podem esquecer de retribuir e de anunciar esse amor que transforma. Tudo parte deste Coração Amoroso. Todo apostolado e de modo especial as missões junto aos mais pobres, só alcançam a sua finalidade se existir intimidade e comunhão com o Coração de Jesus. “As missões longínquas, as missões populares, a educação das crianças, as obras em favor dos deserdados deste mundo, que lindo programa de zelo e de caridade em união com o Coração de Jesus! Mas é preciso sempre que reservemos o tempo das nossas adorações diárias”. Dessa forma, estaremos contribuindo para que se concretize “o reino da justiça e da caridade cristã no mundo”. É esse o nosso principal objetivo e grande missão.

Padre Dehon tinha um grande carinho e respeito pelos seus missionários. Alguns momentos foram de grande emoção e de exemplo de sua humildade. A gratidão pelo sim dado pelos seus religiosos e presbíteros foi marcada por palavras ardorosas que elogiavam a coragem dos primeiros missionários da Congregação: o Pe. Grison e o Pe. Blanc.

Em uma cerimônia privada no Colégio São João, após falar da sua profunda alegria e valorizá-los, Dehon tomou uma iniciativa que ninguém esperava: “Em seguida, ajoelhara-se para beijar os pés dos dois “missionários”, imitado por todos os presentes, recordando o belíssimo texto de Jesus (53,1) aplicado por S. Paulo aos pregadores do Evangelho: “Que formosos são os pés dos que anunciam boas novas (Rom. 10,15)”.

Na carta escrita por Pe. Grison, e também assinada por Pe. Blanc manifesta-se a alegria de servir a Deus nas missões e também percebemos o quanto Pe. Dehon estava feliz com a primeira missão da Congregação:

Durante muito tempo continuamos a vos ver, de pé sobre o molhe de Saint-Lazare, avançando o mais possível, seguindo-nos com o olhar e animando-nos com o sorriso. Um sentimento indefinível enchia-me a alma. Aquele dia foi um dos melhores da minha vida. Desde há muito tempo pensava nesse momento, mas a realidade superou as minhas esperanças e compreendo que o agradecimento, especialmente à Santíssima Virgem, deve prevalecer na minha oração. Nosso Senhor tratou-nos como filhos prediletos.

Com um profundo respeito, Pe. Dehon lembrou-se dos seus missionários que sacrificaram as vidas: “Alguns morreram generosamente na missão: no Congo, no Brasil”. No mês de março de 1912, especialmente, recordou que: “No Congo são 17 os que deram a vida pela conversão dos negros. Um santo Cardeal dizia-me que só o fato de irem para lá, expondo-se ao perigo de uma morte iminente, mereceria para eles a palma do martírio”.

Diante das dificuldades e dos desafios que Dehon sabia que os seus religiosos deveriam enfrentar, sempre falava da confiança e do amor de Jesus Cristo. No Diretório Espiritual, faz recomendações preciosas para todos os religiosos e presbíteros: “Precisamos de confiança. É a fonte do abandono, tão necessário à nossa vocação. Precisamos de uma confiança filial, que não fraqueje nas provações. Podemos-nos duvidar da bondade de Nosso Senhor, da sua solicitude, da sua misericórdia? Ele que se fez homem por nós e que morreu por nós, negligenciará alguma coisa que nos possa ser vantajosa?”

Nas nossas Constituições encontramos a atualização da experiência de fé do fundador e do nosso carisma. Por isso, a exemplo dele, devemos amar e respeitar de modo especial a todos os dehonianos que disseram “sim” a Deus para tarefas difíceis e em terras longínquas.

Onde estiver um dehoniano, lá estará a Congregação. É o espírito do “Sint unum” que é perpetuado nas nossas Constituições e motiva os nossos formandos, religiosos e presbíteros: “Para nós, como para o Padre Dehon, a atividade dos nossos missionários assume particular importância. Toda a Congregação está presente no seu ministério de evangelização, pelo qual dão aos homens esta prova de amizade: estar no meio deles ao serviço da Boa Nova”.

A Igreja continua contando com o serviço e o testemunho dos religiosos no trabalho de evangelização nas terras distantes. O trabalho do anúncio do Evangelho não poder parar. Precisamos continuar com o mesmo ardor missionário do fundador e dos nossos pioneiros.

Na Exortação apostólica Vita Consecrata, citando o documento da IV Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, o Papa João Paulo II afirma que os religiosos devem “amar com o coração de Cristo”. Também recorda que o gesto de Jesus de lavar os pés é um ensinamento que revela o profundo amor que Ele tem pela humanidade e revela o verdadeiro sentido da vida cristã e consagrada. Portanto, deve ser uma “vida de amor oblativo, de serviço concreto e generoso”. Essa idéia e esses termos já são conhecidos dos dehonianos. Neste sentido, podemos afirmar que é uma provocação e um verdadeiro convite ao anúncio do Evangelho:

“A busca da beleza divina impele as pessoas consagradas a cuidarem da imagem divina eformada nos rostos de irmãos e irmãs: rostos desfigurados pela fome, rostos desiludidos pelas promessas políticas, rostos humilhados de quem visto desprezado a própria cultura, rostos assustados pela violência quotidiana e indiscriminada, rostos angustiados de menores, rostos de mulheres ofendidas e humilhadas, rostos cansados de migrantes sem um digno acolhimento, rostos de idosos sem as mínimas condições para uma vida digna”.

Com esse apelo, somos enviados em missão para todas as partes do mundo. Com um ardor incansável sustentado pelo amor ao Sagrado Coração de Jesus, segundo o carisma e a herança espiritual de Pe. Dehon anunciamos que um Mundo Novo é possível.